terça-feira, 13 de novembro de 2012

Eros: Una Vez María (México - 2007)



           
           Como eu escrevi na descrição do blog, eventualmente seriam feitos comentários sobre filmes não produzidos no Chile. É o caso de Eros: Una Vez María, filme mexicano dirigido por Jesús Megaña Vázquez e que é a primeira produção não-chilena a ser comentada aqui no blog. 

            Tonatiuh (Julio Bracho) é um homem atormentado pelas lembranças que tem de sua noiva, María (Ana Serradilla) que cometeu suicídio recentemente. Como forma de tentar sanar o vazio provocado pela violenta perda, Tonatiuh sai com diversas mulheres de nome María tentando encontrar em cada uma delas as características de sua amada. 

            Ao longo do filme fica evidente para o espectador que nem todas as “Marías” com que ele transa ou se relaciona, são de fato pessoas do seu meio social. Na maioria das cenas com as diversas Marías (desde a psicóloga até a prostituta contratada em momento de forte carência), o que temos são metáforas dos pensamentos, alucinações, situações reais, sonhos e condições existenciais do protagonista. O problema é que essas cenas entrelaçam-se a ponto mesmo de ser difícil compreender o que é metáfora ou não no desenrolar dos acontecimentos. Mesmo a trilha sonora é confusa, pelo menos até os quinze minutos finais da trama, quando fica explícito que as Marias que mais aparecem no filme representam dialeticamente o passado, o presente e o futuro. Dessa forma, a estória é centrada na trajetória existencial de um homem que acabou de perder de forma trágica a mulher amada. 

            Eros: Una Vez María, é arte para poucos. Sua lógica um tanto kafkiana e dialética torna a experiência de assisti-lo extremamente cansativa, embora o final seja um dos mais emocionantes que eu particularmente já vi. Quando o assisti, muitos dos espectadores levantaram-se e foram embora durante a exibição, mas os que ficaram aplaudiram de pé o resultado. É o tipo de filme que você odeia ou gosta muito. Eu, particularmente, recomendo.

Nota: 8,0

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Paréntesis (2005)

 

            Sabe aquele filme que você escuta boas indicações, mas sempre adia o momento de vê-lo e quando finalmente assiste pergunta-se sobre o motivo de não tê-lo visto antes? Então, é o meu caso com Paréntesis (Parênteses), de Pablo Solís e Francisca Schweitzer. Apesar de ter ouvido boas indicações, o filme foi exibido em alguns festivais sem ter, contudo, levado muitos prêmios conforme outros filmes comentados aqui no blog.
           
            Camilo (Francisco Pérez-Bannen) é um jovem de 28 anos que mora sozinho em seu apartamento, trabalha em uma vídeo-locadora, é viciado em remédios e tem pouco interesse em tomar as rédeas de sua vida ou pensar em um futuro melhor. Sua namorada, Pola (Sigrid Alegría), insatisfeita com essa situação e com as atitudes imaturas de Camilo decide pedir um tempo de uma semana para repensar o relacionamento. Em meio à tristeza em ver-se sozinho e aos encontros com um amigo mais velho que adora distribuir livros de auto-ajuda, Camilo conhece Mikela (Carolina Castro), uma menina de 16 anos, recém-saída de um hospício, que transformará esse tempo longe de Pola em um dos mais felizes de sua vida.






O filme tem início no momento da briga entre Camilo e Pola, ou seja, toda estória é centrada na semana dada por Pola para repensar seu relacionamento (daí o nome Parênteses enquanto metáfora que funciona muito bem). As cores das roupas dos protagonistas, os jogos de câmera e a trilha sonora funcionam como metáforas que dão um toque especial no clima das situações vividas pelos personagens. 

Apesar de comovente, é um filme bastante leve e muito diferente das produções chilenas de maior sucesso da década passada, seja pela temática, como também pela abordagem. Difícil não apaixonar-se pela personagem Mikela, muito bem interpretada por Carolina Castro (particularmente me lembrei da Katrim, personagem de Bertold Brecht, na peça Mãe Coragem e Seus Filhos). Considero uma belíssima produção que agrada pelo frescor de sua mensagem, pelo realismo de sua estória e vivacidade de cores.

Nota: 9,5

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Joven y Alocada (2011)



             Joven y Alocada (Young & Wild: as aventuras de uma ninfomaníaca) é o primeiro longa-metragem de Marialy Rivas e vem conquistando importantes prêmios internacionais como em San Sebastián e Sundance. Recentemente também foi exibido no Festival de Berlin e no Festival do Rio (onde tive oportunidade de assisti-lo). 

           Daniela (Alicia Rodriguez) é uma jovem de 17 anos que teve uma rígida criação no seio de sua família evangélica. A rebeldia e a frustração, próprias de sua idade, a leva viver uma vida pautada em aventuras sexuais que são narradas em um blog. Uma dessas aventuras é descoberta e a menina é expulsa do colégio e proibida pela família de prestar o vestibular. Como castigo, sua mãe (Aline Kuppenheim), impõe que a jovem trabalhe em uma emissora que produz programas gospel, onde ela conhece Tomás (Felipe Pinto) e Antônia (Maria Gracia Omegna). A relação com Tomás e Antônia, potencializará os questionamentos existenciais de Daniela, intensificando também as suas experiências individuais frente à vida.  

        O filme é bastante crítico e, sobretudo, provocador. A intenção é gerar incômodo e debate sobre temas diversos que aparecem interligados na trama como sexualidade, morte, maturidade e religião. Os momentos de humor são estratégicos e tem êxito em aliviar a pressão sobre o modo como são questionados o modo de vida e as contradições presentes nas idéias e cotidiano das famílias evangélicas. Nesse sentido, os questionamentos de uma jovem de 17 anos, ou seja, um indivíduo no limite entre a adolescência e a fase adulta cai perfeitamente bem para que esse tema possa ser abordado, em conjunção com o tema da sexualidade. O filme, contudo, acaba tendo uma grande capacidade de fazer pensar sobre temas que nem são os focos principais da estória.

            Joven y Alocada é baseado no blog de mesmo nome, escrito por uma adolescente com as mesmas características da personagem Daniela. A temática do filme pode não agradar a qualquer pessoa e é bom ressaltar que as cenas de sexo tanto hétero como homo abundam, apesar de eu achar tudo muito bem feito e sem exageros. Vale muito a pena ser visto principalmente pela sua belíssima fotografia, pela fantástica trilha sonora (que inclui até belas musicas no estilo gospel), e pelo elenco de peso que reúne: Aline Kuppenheim, Maria Gracia Omegna, Alicia Rodriguez (cuja atuação me surpreendeu muito), Andrea García-Huidobro, Catalina Saavedra e etc. 

Nota: 8,0
     

sábado, 1 de setembro de 2012

Táxi para Tres (2001)





Filme clássico e obrigatório para quem quer conhecer o cinema chileno, Táxi para Tres (2001) dirigido por Orlando Lübbert, ganhou diversos prêmios internacionais como em San Sebástian, Festivais e Havana e Mar del Prata, além de indicação ao Prêmio Goya de melhor filme estrangeiro.

Ulisses (Alejandro Trejo) é rendido por dois bandidos, Chavelo (Daniel Muñoz) e Coto (Fernando Gómes-Rovira), quando tentava sair de um bairro pobre. Eles dão duas opções: guia o táxi enquanto realizamos os assaltos ou nos acompanha trancado no porta-malas. Ulisses resolve guiar o táxi. O problema é que ele dirige tão bem que impressiona os bandidos, que passam a chamá-lo de “Fitipaldi” e ainda dividem com ele os lucros dos muitos assaltos realizados a bordo do táxi. Ulisses sente seus valores morais serem balançados e percebe as vantagens em continuar praticando os assaltos, passando de vítima à cúmplice. Entretanto, todo esse cenário sofre modificações quando os assaltantes começam a freqüentar e, até mesmo, morar na casa de Ulisses, alterando a vida de sua esposa e filhos.

Táxi para Tres contém fortes críticas as instituições e à sociedade chilena, mas suas críticas, tanto quanto a situação retratada, podem ser aplicáveis à realidade de qualquer país latino-americano, especialmente o Brasil. Apesar do filme flertar bastante com a idéia do indivíduo pobre envolvido com o crime enquanto resultante da falta de oportunidades na vida, ele consegue ser bastante perturbador, principalmente por abordar dilemas morais complexos, sem perder a leveza própria de uma boa comédia.

Além de contar com uma ótima trilha sonora, a trama prende bastante a atenção do espectador, contando com atuações belíssimas, com destaque para Daniel Muñoz: Chavelo e sua voz ficam por muito tempo na memória. É um filme que recomendo fortemente.

Nota: 9   

sábado, 18 de agosto de 2012

El Chacotero Sentimental (1999)


            

            Esse, sem dúvida, é um dos mais importantes clássicos do cinema chileno. Dirigido por Cristián Galaz e contando com um elenco muito interessante, El Chacotero Sentimental (O Coringa Sentimental) foi um dos primeiros filmes da era pós-Pinochet a atingir relativo êxito no cenário mundial, conquistando diversos prêmios nacionais (como em Viña del Mar) e internacionais (Toulousse, Chicago, Bogotá, etc.). 

          O filme é baseado em fatos reais e relatos difundidos no programa de rádio El Chacotero Sentimental, sucesso na década de 1990. Rumpy (Roberto Artiagoitía) é quem apresenta o programa de rádio e escuta os relatos de pessoas com conflitos sentimentais ou problemas emocionais, que telefonam para o programa em busca de conselhos ou para desabafar e relatar suas aventuras. O filme apresenta três relatos diferentes de pessoas com diferentes níveis socioeconômicos.

            A proposta do filme é traçar uma pequena radiografia da sociedade chilena, mostrando alguns dos dilemas morais enfrentados pelos personagens. O espectador acaba sendo apresentado a uma sociedade com forte apelo sexual que entra em constante contradição com certos aspectos conservadores que permeiam essa mesma sociedade. É um filme com uma proposta ousada, mas que acaba pecando pela pretensão e por difundir alguns clichês. Dos três casos apresentados, dois são de pessoas de camadas menos favorecidas da população e um de alta classe média. Enquanto nos dois casos o apelo sexual possui conotação positiva pela simplicidade, leveza e aspecto cômico, o outro caso mostra um lado sombrio dessa mesma moeda, quando duas irmãs se veem em posição antagônica devido a um caso de incesto que perdura anos. Ou seja, o filme acaba flertando com uma dicotomia simplista sobre o comportamento de pessoas ricas e pobres, algo que será desconstruído anos mais tarde em filmes como B-Happy

            Acredito ser um erro, classificar esse filme como sendo do gênero comédia. É um filme que pode fazer rir, chorar e depois rir novamente, e o espectador deve estar pronto para encarar esses momentos de “montanha russa” onde intercala-se a comédia e o drama. É um filme que recomendo para quem tem interesse nas produções da América Latina, especialmente por ser um clássico da década de 1990.                

Nota: 5,0

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Navidad (2009)




         Segundo longa-metragem do premiado diretor Sebastián Lelio, Navidad (Natal), foi exibido na edição de 2009 do Festival do Rio e em Cannes, sendo recebido com aplausos e elogios por onde passou e conquistando o prêmio de melhor direção em Viña del Mar, também em 2009. O sucesso desse longa, no entanto, não chegou nem próximo do seu antecessor La Sagrada Família (2006).
    
           Alejandro (Diego Ruiz) e Aurora (Manuela Martelli) são um jovem casal em crise no relacionamento, que decidem passar a noite de natal exilados na abandonada casa de campo do falecido pai de Aurora. Nos arredores da casa, eles encontram Alicia (Alicia Rodriguez), uma adolescente que acabou de fugir da casa dos pais. Decidida a não retornar, Alicia passará a noite de natal com o casal, o que potencializará a crise vivida por cada um dos personagens, impelindo a uma mudança radical em suas vidas.

            A princípio, quando estamos assistindo ao filme, podemos pensar que o natal é apenas um plano de fundo para os eventos que se dão com os três personagens. Entretanto, o sentido cristão da data, seja ligado a uma idéia de nascimento ou renascimento, tanto quanto o sentido religioso-católico (momento de reflexão e mudança), está muito presente na trama por meio dos acontecimentos. O filme retrata um movimento que poderíamos chamar de dialético, não só para o casal, mas para todos os envolvidos. Alejandro é um jovem atormentado pelas indecisões próprias de um momento de transição etária e não tem mais certeza do que sente por Aurora. Aurora é mais segura e transpira maior maturidade, mas possui duvidas relativas a sua própria sexualidade. A noite de natal na casa de campo torna-se uma encruzilhada: a presença de Alicia, com seus próprios problemas, funciona como mola propulsora para a reflexão e a tomada de decisões.



          O filme conta com uma bela fotografia, mas o destaque parece mesmo ficar com a atuação de Manuela Martelli, que nos faz ter uma empatia muito forte com o personagem Aurora. Vale ressaltar que o filme conta com algumas metáforas bem sutis que dão um toque especial na experiência de assisti-lo, especialmente nas cenas finais. 

              Nota: 8,0

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Violeta se Fue a Los Cielos (2011)




Dirigido pelo premiado diretor chileno Andrés Wood (o mesmo diretor de Machuca), com uma co-produção argentina e brasileira, Violeta se Fue a Los Cielos (Violeta foi para o Céu) conta a trajetória de vida e artística de Violeta Parra, grande nome da cena artística do Chile e apontada como fundadora da musica popular chilena. O filme vem sendo bem aplaudido pela crítica e conquistou alguns importantes prêmios, como o de “melhor filme” na edição 2012 do Festival de Sundance.
O filme é baseado na biografia escrita pelo filho de Violeta Parra, Ángel Parra, e não segue a linha convencional utilizada por outros filmes do gênero. A entrevista dada a uma emissora televisiva serve de fio condutor para seguir sua trajetória desde a dramática infância. Desse modo, não há uma linearidade no filme, sendo abarcado, na verdade, vários momentos importantes da obra de Violeta Parra, revelando as muitas dimensões de sua vida pública: desde a cantora de musicas populares em pequenas festas no interior do Chile, sua militância pela valorização da cultura popular no país, sua estadia na Polônia Soviética e França, mantendo contato com intelectuais de esquerda, e seus feitos enquanto artista plástica. Misturado às dimensões da vida pública, o espectador é apresentado às dimensões de sua vida particular e dos seus sentimentos, numa tentativa de apreender as contradições, angustias, inquietações e paixões que dominavam a alma da artista. 


            Mais do que a trajetória artística de Violeta Parra, o filme nos trás a trajetória de sua alma sofrida. Esqueça aqueles filmes biográficos chatíssimos que, carregados de ideologias, clichês e etc., exaltam e romanceiam o biografado por causa de suas origens humildes ou história de superação e sucesso (que, para piorar, podem trazer um fantasioso e nauseante final feliz). Nessa obra, o que temos é uma descrição densa da alma inquieta da biografada e de vários momentos de sua vida que são fundamentais para entender quem foi Violeta Parra. As metáforas abundam ao longo do filme e são reforçadas por uma belíssima fotografia e pela fantástica atuação de Francisca Gavilán (que guarda muitas semelhanças físicas com a própria Violeta Parra). A trilha sonora é recheada de belíssimas musicas cantadas pela própria Violeta e encontram-se em perfeita sintonia com as cenas. É um filme que torna-se referência importante sobre sua vida e obra, ousando aprofundar-se em seus conflituosos sentimentos, dando um toque poético especial, sem deixar de manter-se realista e convincente. 


          Nota: 10,0